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terça-feira, 11 de março de 2008

Bota na conta do papa!

A igreja católica acabou de inventar quatro novos pecados. Como se a gente já não tivesse problemas demais tentando não desejar a mulher do próximo, não comer aquele chocolate batuta em frente à TV ou não ficar com raiva dos políticos, eles acrescentaram mais QUATRO problemas com os quais a humanidade precisa se preocupar. Isso foi hoje. Mas como eu estava desatualizado, não sabia que antes disso eles já haviam inventado mais dois pecados. Ou seja, são SEIS novas trangressões na lista.

Os que já haviam sido “acrescentados”:

- Uso exagerado da mídia (internet, televisão, rádio e jornais);
- Divulgação de conteúdo impróprio nesses meios de comunicação;

Os novos pecados, inventados essa semana:

- Manipulação genética;
- Poluição ambiental;
- Uso e tráfico de drogas;
- Injustiças sociais.

Ou seja, o papa é um GÊNIO. Ele condenou a humanidade INTEIRA ao inferno. Qualquer boteco de esquina hoje tem internet banda larga e TV a cabo, e existe muita gente que é viciada em televisão, rádio e internet. Fora os “pequenos transgressores”. O trânsito está engarrafado e você ligou o rádio? Vai pro inferno. Comprou um cd? Vai pro inferno. Assina algum jornal que é entregue na sua casa todos os dias de manhã? Vai pro inferno. Tem Orkut? Vai pro inferno. Chegou em casa cansado e ligou a TV para relaxar? Vai pro inferno. Assistiu o programa do Gugu ou do Faustão no domingo? Bem, aí você está pedindo...

Quem trabalha com meios de comunicação está ferrado. Todos os jornalistas estão automaticamente condenados (eu mandei minha última ex, que era jornalista, para o inferno... acho que praga minha pega). Fotógrafos, atores, músicos, jornalistas, blogueiros, programadores, webdesigners, políticos, vai todo mundo pro inferno...

(O capeta vai ter um trabalho desgraçado quando Lula e seus trapalhões forem para lá!)

Quanto aos quatro pecados “da semana”, a escolha foi bem interessante... Manipulação genética virou pecado, então todos os pecuaristas e agricultores que selecionam os melhores espécimes para a reprodução, obtendo assim uma produtividade melhor, estão condenados. Ou seja, todos os pecuaristas e agricultores do mundo, sem exceção, já que não existe nenhum que não faça isso. Será que o papa não sabia que isso é uma forma de manipulação genética também? Ele deve pensar que esse termo só se aplica àquela coisa bonitinha que cientistas fazem em laboratório... E que só existe em filme, porque os cientistas estão LONGE de fazer certas coisas que permeiam o imaginário popular.

Poluição também virou pecado. Se você é dono de uma indústria, vai pro inferno. Aliás, só trabalhar numa indústria já te dá direito a uma passagem só de ida para visitar o tinhoso. Jogou um chiclete na calçada? Inferno. Usa celular? Inferno. Fuma? Inferno. Possui mais do que precisa (mais que duas mudas de roupa, por exemplo)? Inferno. Usa computador? Inferno. Gasta muita água? Inferno. Tem carro? Inferno. Anda de ônibus? Inferno. Já usou uma sacola plástica alguma vez na vida? Inferno. Vidro? Burn baby, burn...

O mais engraçado de todos os pecados (ou melhor, dos novos pecados) é a “injustiça social”. O papa foi tão genial que condenou a África, as Américas, a Ásia e a Oceania ao inferno. Sobrou só a Europa, e ainda assim, com ressalvas. Mas peraí... Se ele condenou a manipulação genética e, por tabela, a pecuária e a agricultura, isso não aumenta a fome no mundo? Não aumenta a desigualdade social? Se ele condenou a poluição e, por tabela, as indústrias, principais geradoras de empregos em certos países, isso não aumenta a desigualdade social também?

E claro, aqui cabe aquela pergunta midiática (ops, pequei): “tem culpa eu”? Tenho culpa de ter nascido no Brasil, e não em uma Inglaterra ou Alemanha? Ah, não interessa... eu tenho um blog, vou pro inferno de qualquer jeito. Meu consolo é que nunca vou me sentir sozinho por lá, já que a humanidade INTEIRA vai junto.

Depois perguntam por que a popularidade do nosso amigo anda tão em baixa... O departamento de marketing do vaticano é péssimo! Como eles queriam que o papa fosse popular mandando todo mundo pro inferno? Ah, esqueci... Eles não possuem marqueteiros. É pecado.

Perdoai-o senhor, ele não sabe o que faz.

Ainda bem que não acredito nessas coisas.

sábado, 8 de março de 2008

BLOG PSEUDO-INTELECTUAL???

Como já devem ter percebido, é minha primeira vez montando páginas na internet. Isso significa que eu não sei nada sobre blogs, sobre “etiqueta de blogagem” nem sobre os termos pomposos que usam para descrever nós, desocupados que gastamos neurônios cuidando de um site de meia-tigela como se cuida de uma planta.

Numa dessas buscas no Google procurando sobre como poderia melhorar minha página eu me deparei com o “Guia Prático do Blog Intelectual". Li o texto e o achei tão idiota, mas tão idiota, que me sinto na obrigação de comentá-lo. Abaixo transcrevo o mesmo, adicionando os meus comentários entre chaves [].

-----INÍCIO DO TEXTO-----

Se o seu blog anda meio desanimadinho??? você não agüenta mais escrever sempre os mesmos posts??? e pior... ninguém agüenta mais LER os mesmos posts??? ninguém mais coloca comentários, e quando coloca, é propaganda de provedor??? e sua conta de estatísticas foi fechada por inatividade??? [Lá vem propaganda tosca ao melhor do estilo POLISHOP]

Chegou a solução: As 7 Atitudes de um Blog Intelectual. O guia do blogueiro que não tem nada a dizer. [Já começou mal pelo nome. Não bastasse isso, é um guia para quem “não tem nada a dizer”. Se você não tem nada na cabeça não vai ter guia que te salve, meu filho...]

Com apenas um capítulo por dia de aprendizado, ao final de uma semana você terá um blog repleto de conteúdo e informação!!! Este é o único guia prático de blogs intelectuais aprovado pelo Paulo Coelho. Imperdível! [E desde quando Paulo Coelho é referência para alguma coisa?]

1 - Nome Do Blog:

O nome do blog intelectual deve ter pelo menos 17 sentidos diferentes [Para ninguém entender um único sequer]. Algo eternamente belo para apaixonados, incrivelmente sensível para suicidas [Boiolice] ou exatamente aquilo que os práticos sempre pensaram [Fale o óbvio]. Para cada pessoa uma interpretação. Sempre incompleta, é claro [Se não tem nada inteligente a dizer, fale algo sem sentido e faça pose!]. Caso você não seja capaz dessa proeza lingüística, pense uma palavra qualquer e traduza para o alemão [Vou mudar o nome deste blog para Würst]. Pronto! Você já tem o nome do seu blog intelectual. [Começou mal pra burro]

2 - Layout do Blog:

Não use imagens. Não use cores. O fundo deve ser branco com fonte times new roman preta [Coisa medonha! Eles querem que a gente escreva o troço como se fosse uma daquelas petições que faziam em máquinas de escrever antigas]. Use no máximo fontes em negrito nos títulos, ou se você for muito ousado, underline [Ousado?]. Quanto mais seu blog ficar parecido com um editorial financeiro do New York Times melhor [No Brasil é assim: se você não for bom o suficiente, COPIE UM GRINGO!]. Qualquer artifício visual pode desviar o leitor do verdadeiro foco do seu blog [Que foco? Ele não disse no início que o guia é para quem não tem nada a dizer?].

3 - Perfil do Blogueiro:

Existem várias alternativas para adotar e tornar-se um verdadeiro blogueiro intelectual [Agora zoaram o negócio... Eles estão ensinando como fingir ser um intelectual, mas você irá “tornar-se um verdadeiro” intelectual...]:

1) Seja depressivo [Bicha]. Veja sempre o lado ruim das coisas [Bicha]. Sempre que possível, deixe bem claro o quão solitário é... [Bicha] mostre ao mundo quanto toda essa medíocridade a sua volta o deprime [Bicha]. Uma boa dica para o blogueiro intelectual deprimido é passar alguns períodos sem postar nenhuma mensagem... isso gera certa apreensão mórbida no seu público leitor [Composto por bichas].

2) Seja neurótico. Ser neurótico é chique [Preciso repetir?]. Pessoas não neuróticas tendem a ser obesas, lentas e passivas [Pessoas SEDENTÁRIAS tendem a ser obesas. Ou então pessoas com pequenas condições endocrinológicas. Isso não tem nada a ver com neuroses...]. Já os neuróticos reagem com maior intesidade às adversidades [Sim, surtando e enchendo o saco de todo mundo]. Mesmo que não sejam exatamente adversidades [...]. Para mostrar-se um blogueiro intelectual neurótico fervoroso [Ai meu deus...], deixe bem claro o quanto as pequenas coisas o irritam. O trânsito... [Confere] os flanelinhas... [Confere] os idosos que não pagam ônibus... [Ei, isso é direito deles!] os atendentes do Mac Donalds... [Pensei que intelectuais não gostavam do imperialismo Yankee!]

3) Seja crítico. Sim... critique tudo! Desde o processo de globalização até a peça de teatro infantil da filha da enteada da sua vizinha [Textos de internet servem?]. Para poder posicionar-se perfeitamente como um blogueiro intelectual crítico de primeira [Cacete, olha o título eclesiástico que inventaram...] é importante saber que existem dois tipos básicos de intelectuais... os que criam... e os que criticam. Caso você não se encaixe no primeiro caso. Não vacile. Caia de cabeça no segundo [Se não conseguir ser original, seja um idiota].

4) Seja sensível. Não adianta ser um intelectual sem coração [Não?]. Mostre que você tem sentimentos. Você é um ser humano... você pensa... [Uau!] e justamente por pensar... você chora [Bicha]. Chora pelos corais do Pacífico. Chora pelo o que a sociedade tornou o Fernandinho Beira Mar [Bicha²]. Chora pelo amor não correspondido à Lara Flynn Boyle [Quem é essa?]. Chore apenas por coisas irreparáveis, caso contrário sua sensibilidade terá sido em vão [Segundo o autor do texto: “intelectual” = bicha].

5) Dicas gerais de impostura intelectual:

- Nunca poste mensagens antes da 1:00AM. [Já sei! Intelectuais não precisam trabalhar de manhã cedo!]

- Sempre que possível, poste o maior número de mensagens entre sexta-feira a noite e domingo de manhã. [Ao invés de aproveitar o final-de-semana para ficar com os amigos e a namorada, ou fazer qualquer coisa mais útil]

- De tempos em tempos escreva algo que nem você entenda, por exemplo: "A massa do eu é um todo complexo e coeso". Mostra que você é uma pessoa complexa... cheia de pensamentos multifacetados. [Ou um completo idiota. NOTA: O pessoal da filosofia é muito bom nisso.]

- Fale palavrões. Depois de um longo texto sobre intolerância religiosa, por exemplo, termine com um 'foda-se' [Para mostrar que você tem argumentos]. Dá muito mais força aos seus argumentos [Viu?]. Mostra convicção. [Ou mostra que você é mal-educado. Mas foda-se. Ei, acho que estou pegando o jeito!]

4 - Títulos dos Posts:

Jamais... entenda bem... JAMAIS coloque um título de post com menos de 9 palavras, sendo que destas, 3 devem ser quadrissílabas [“Tudo o que sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar”. Droga, não há quadrissílabas...]. É imperativo que contenha pelo menos um nome próprio, de preferência composto [“Doce Veneno do Escorpião: o Diário de Bruna Surfistinha”]. Nomes estrangeiros são muito bem recebidos [“Harry Potter e as Relíquias da Morte”].

Alguns títulos de post bem sucedidos:

"A verdadeira psicodinâmica das cores complementares segundo as variantes trinomiais de Ludwig Van Helsing" [Lixo]

"Uma breve análise do parnasianismo espanhol sob o prisma do pré-modernismo da Tchecoslováquia pós-guerra" [Lixo... E o pior é que eu acho que conheço quem escreveu...]

5 - Conteúdo:

O conteúdo é o item mais importante para que seu blog seja comentando nos altos círculos literários [Huahuauhuauahua... Se fosse assim Paulo Coelho não estaria na Academia Brasileira de Letras!]. Geralmente, você pode falar o que bem entender, pois o blog é seu e os visitantes são conseqüência [Então para quê esse monte de conselhos estúpidos?]. Porém existem alguns assuntos de interesse geral, que bem explorados, podem prender a atenção de seus leitores por mais de 20 linhas:

Cinema: É um ótimo tema potencial para blogs intelectuais [Aposto que vão sugerir que o autor fale de filmes iranianos que nem assistiu].

O primeiro passo é deixar bem claro aos seus leitores que você assiste a um filme exatamente como um cardiologista assiste a um cateterismo [Com tédio?]. Isso feito, escolha um repertório de filmes não-americanos jamais vistos fora dos circuitos alternativos de cinema [Ou seja, filmes que foram um fracasso de bilheteria]. Quanto mais distante geograficamente for o país de origem do filme em questão, melhor a crítica. Filmes iranianos ou chineses são uma ótima pedida [NÃO DISSE?! EU SABIA!!!]. Faça sempre que possível referências ao DOGMA, exaltando-o como movimento expressivo do cinema mundial [E o que cargas d’água é isso?].

Se você preferir falar do mundano cinema americano, faça comentários do tipo: "A edição de Titanic é maravilhosa" ou "A direção de arte de Matrix deixa um pouco a desejar" [“Titanic” foi muito bem feito mas a história é um saco; “Matrix” tinha uma história interessante e excelentes efeitos, mas os dois últimos filmes da triologia eram um lixo... Ficou bom assim?].

Notícias: É importante que seu blog tenha dinamismo, e acima de tudo, mostre que você é uma pessoa atualizada nos mais diversos assuntos [Ou seja, copie e cole sem ler notícias que saem no portal da Globo, da CNN e da BBC]. Você pode facilmente agregar várias informações valiosas às notícias do dia-a-dia [Dar pitaco sobre assuntos que não sabe]. Por exemplo, ao dar o resultado de um jogo Corinthians 3 x Palmeiras 1, você não precisa falar apenas do desempenho dos centro-avantes, mas pode elaborar uma grandiosa dissertação sobre o futebol como ferramenta de alienação do povo [Seja hipócrita, fale mal do esporte cujo jogo acabou de assistir aos berros, enchendo o talo de cerveja e subindo na mesa para fazer a “dancinha da vitória”, que inclui abaixar as calças e mostrar o traseiro para seus amigos do time perdedor].

Poesia: Definitivamente, um blog intelectual sem poesia não é um blog intelectual [Batatinha quando nasce...]. Infelizmente, poesia não é para qualquer um... mesmo intelectuais. Caso você não consiga fazer mais do que versos de 'coração', 'paixão' e 'violão' [Isso daria um excelente blog de música sertaneja!], existe uma solução simples e prática para tornar-se um poeta efetivo. 1) Pegue um dicionário da língua portuguesa ["Vá estudar, seu burro"]. 2) Sorteie uma página aleatóriamente [Não vou nem comentar o conselho ridículo do autor do texto, apenas chamar a atenção para um “intelectual” de tão alto nível acentuando a palavra de forma errada]. 3) Feche os olhos e com a ponta do dedo indicador escolha uma palavra qualquer [Lá vem bobagem...]. 4) Anote-a... repita esse processo quantas vezes achar necessário e ao final, coloque-as todas no seu blog separadas por reticências [Veio]. O resultado ficará parecido com [Aquilo que chamam de "arte contemporânea?]:

familiar... mandato...
propalar... colocíntede...
punibilidade... trituramento...
infieldade... surto...
alcaboz... áspide...
defendente... oreógrafo... [Ai meu deus...]

Não se preocupe em encontrar algum significado. Seus leitores com certeza encontrarão [Se for para ser lido por gente estúpida, para que ter trabalho de escrever?].

4) Serviços: para aumentar a audiência do seu blog, você pode prestar alguns serviços ao seu público cativo. Um ótimo exemplo de serviço é um calendário de eventos culturais. Além de passar valiosas dicas de lazer aos seus leitores, você mostra que está a par do cenário cultural de sua região [Ou seja, recomende-os a assistir aquelas peças de teatro e apresentações musicais tão ruins que nem você vai lá ver]. Exemplo:

"Galera! Hoje a noite vai ter o show solo Terra, Raízes e Sentimento do percussionista Duca Mirandinha. Vai ser demais! Quero ver todo mundo lá, hein?" [...]

[Detalhe: a menos que eu esteja enganado a maioria das prefeituras, jornais, rádios e redes de televisão já faz esse tipo de serviço]

6 - Links para blogs amigos:

Depois que notarem a riqueza intelectual do seu blog [Ele falou isso mesmo?], centenas de amigos irão pedir que coloque um link para seus sites. NEGUE! [???] Caso contrário você terá uma infinidade de blogs inúteis ligados ao seu, cheios de bobagens como receitas de muquecas de camarão ou resultados parciais do Brasileirão [Que é mais autêntico que esse lixo todo acima descrito]. Considerando que intelectual não necessariamente é mal educado [Ele não mandou usar palavrões?], seja polido e diga aos seus amigos que existe um incompatibilidade editorial (tm Jodie) entre os blogs, impossibilitando assim a troca de links [Minta]. Caso você queira expandir os horizontes do seu blog, coloque links para sites de outros intelectuais tão ilustres quanto você [Huahauauhauhuhaua...], por exemplo, Stephen Hawkins, Thomas H. Davenport ou Paul Kogan [Tadinhos deles... se soubessem...].

[Em outras palavras: para fingir que você tem conteúdo, precisa ser um mané]

7 - Comentários:

Este é um erro muito comum entre os blogs intelectuais. De nada adianta você fazer um post de trezentas linhas fazendo parelelos entre 11 de setembro e o surrealismo francês [Quem se importa com isso? Aliás, só com muita cana alguém conseguiria traçar um paralelo desses...] e ter sua lista de comentários cheia de pérolas como: "AEEE MANU!!! MANDO BEM!!!! VC RLZ AS TETA !!!!" ou "Oi Má !!! É a Cá !!! Muito fofo esse seu blog, viu??? Te vejo no shopping !!! Bjos MIL !!!!". Somente um comentário desses e sua vida de blogueiro intelectual está seriamente comprometida [Mas pelo menos ainda terá vida social... Se algum dos meus amigos fizesse um blog no molde sugerido, eu iria fingir que não o conheço].

-----FIM DO TEXTO-----

O autor só pode estar de sacanagem. Pelo menos eu espero... A grande lição que eu extraio daqui é: seja um idiota, mas seja um idiota PRETENSIOSO!

Meus leitores (se é que tenho algum...), prometo jamais fazer isso com vocês!

quinta-feira, 6 de março de 2008

LUTADOR “EXPERIENTE”

Irei narrar aqui um caso cômico que ocorreu comigo em uma aula de Karate. Sim, eu disse Karate. Pratico essa arte marcial já há algum tempo. Talvez eu não deva começar do caso cômico em si, mas de como me envolvi com passatempo tão “incomum”.

Voltando ao passado: Artes marciais?

Para desgosto do meu pai, nunca fui bom em futebol. Na verdade, eu até era mediano – sabia passar a bola direitinho, fazia uns cruzamentos bons, era um ótimo zagueiro e tinha uma “patada” bem forte para as cobranças de falta. Eu tinha algo que poucos meninos do colégio tinham na minha idade, que era visão estratégica. Enquanto todos queriam pegar a bola e sair driblando meio time adversário sozinhos para depois marcar um gol triunfal, eu simplesmente procurava o jogador mais bem colocado e mandava a bola para ele, numa boa posição. Mas apesar de tantas qualidades, eu era péssimo para driblar. Também não sabia fazer nenhuma “firula”, como embaixadinhas ou gols de bicicleta. Somando isso ao fato de que eu sempre fui o aluno com melhores notas nas escolas onde estudava, era gordinho e usava óculos, o resultado era que eu sempre acabava como o último a ser escolhido para fazer parte de algum time.

Esse foi possivelmente o maior desgosto que meu pai teve comigo na vida, excetuando-se a decisão de entrar na faculdade de filosofia. Para um botafoguense roxo que jogava futebol todos os finais-de-semana desde a mais tenra juventude, com quatro filhos, sendo três deles homens, era inadmissível ter um filho perna-de-pau. O mais velho já tinha se safado de qualquer cobrança seguindo a mesma profissão do nosso pai e torcendo para o mesmo time. O do meio ficou a perigo quando se declarou corintiano, mas se safou sendo o mais inteligente da família e adquirindo uma situação financeira confortável, suficiente para sair de casa e sustentar uma esposa e duas filhas. Mas eu ainda morava com o velho, era novo demais para trabalhar na época, jogava mal, e para agravar, era flamenguista. Um herege. Devo ter sido trocado na maternidade.

Como se não fosse suficiente a soma de todas essas “qualidades”, eu não dava a mínima para futebol. Achava meio inútil – eram 22 marmanjos correndo atrás de uma bola e, quando conseguiam chegar perto dela, a chutavam para mais longe ainda. Eu achava legal enquanto jogava, era divertido correr de um lado pro outro, chutar a bola, coisa e tal. Mas ficar olhando os jogos, acompanhando tabelas, lembrando qual foi o placar e a escalação de cada time em uma partida “histórica” que aconteceu quando eu nem era nascido... Isso tudo pra mim era um saco. E também não conseguia ver nenhuma função para isso tudo. Se um nadador profissional vê alguém se afogando, ele pula na água e salva a pessoa. Se um praticante de judô vê uma briga, ele imobiliza um dos agressores. Se um jogador de futebol vê uma criança caindo de uma janela... ele controla, faz duas embaixadas, levanta, dá um chute em “bicicleta”, depois tira a camisa e corre pro abraço?

Para piorar, eu adorava artes marciais. Pelo menos o que eu conhecia delas através da televisão. O que não era exatamente uma boa coisa, já que na minha época isso se limitava a desenhos animados ou séries com atores de segunda vestindo roupas ridículas e guerreando com monstros gigantes, o que não correspondia nem um pouco à realidade. Mas para uma criança aquilo era o máximo. Eu imitava os movimentos deles na frente da TV, e me divertia. Meu pai obviamente achava aquilo “muito esquisito” e me matriculou na escolinha de futebol. Sorte a minha que o “professor” passou a perna em todo mundo e fugiu com o dinheiro após as primeiras aulas.

Na adolescência não foi muito diferente. Eu descobri que meus professores de educação física não davam a mínima para as aulas, apenas registravam a presença e depois inventavam uma nota qualquer para os alunos. Então eu passava as aulas fazendo coisas mais interessantes. Houve uma fase em que eu me limitei a observar as partidas, sem jogar. Em outra eu joguei muito pôquer a dinheiro, acumulando até o que seria considerado uma “pequena fortuna” para um garoto daquela idade (que foi completamente gasta com coisas inúteis). Um pouco mais tarde eu fiquei “esperto” e passei a usar este tempo livre tocando violão próximo à quadra das meninas, na esperança de que alguma delas se interessasse. Infelizmente eu tocava muito mal na época, e acabava surtindo o efeito contrário. Claro que eu também era tapado demais para perceber que não estava agradando, mas isso é outra conversa.

Quando atingi a maioridade já tinha parado de me preocupar com a prática esportiva em geral. Tirando corridas regulares na praia e eventuais partidas de basquete, era completamente desligado em relação ao assunto. Até que um amigo que estava procurando uma atividade física me chamou para assistir uma aula de artes marciais com ele. Ele queria começar a praticar uma, e precisava de companhia para visitar as academias.

O primeiro professor

Fomos parar em uma academia próxima, em uma aula de Kung Fu. Eu nem sabia direito o que era isso, apenas que era chinês. Aula lotada, devia ter uns 30 alunos. A maioria era jovem, a média de idade devia ser de uns 16 anos (estávamos com 18 ou 19 na época, não me lembro).

O professor era um senhor de cabelos brancos na casa dos quarenta, forte e muito ágil. Bastante carismático também – seu jeito de falar, de andar, seus gestos de uma maneira geral inspiravam "confiança”. A arte era complicada, cheia de detalhes. Completamente impossível praticar aquele troço, movimentos muito complexos. Fizemos três aulas. Ao término da terceira (para a qual já havíamos convidado um outro colega nosso), o professor se aproximou e nos convenceu a praticar uma outra arte que ele conhecia, que era mais adaptada aos nossos “talentos”. Ele estava abrindo uma turma agora, e seríamos os primeiros alunos.

Nós três (o amigo que começou com essa idéia, o outro amigo que chamamos e eu) descemos as escadas e encontramos uma enorme sala com um tatame azul cobrindo o piso. Lá havia um outro sujeito, alto e forte, um pouco mais velho que nós, usando um kimono branco e uma faixa preta na cintura. Seria nosso instrutor, uma espécie de “segundo-em-comando”, além do mestre.

Já começou a bagunça por aí. A tal arte era japonesa, ao contrário da aula que estávamos assistindo antes, que era chinesa. O mestre foi ao banheiro se trocar e colocou um kimono escuro e um hakama. Para quem não sabe, um “hakama” é uma calça absurdamente larga, parecendo uma saia, que samurais usavam. Era uma arte de samurais. Fantástico, aprenderíamos a lutar como os guerreiros mais temidos do oriente. O problema é que de autêntico esse troço não tinha nada. O professor era um tremendo picareta. O tal mestre se dizia “formado” em oito artes marciais diferentes. Essa arte de samurais era uma delas, ele dizia ter aprendido com um imigrante japonês muito velho que morreu “pouco antes” de dar a ele o devido certificado de que havia concluído o treinamento. O rapaz que seria nosso “instrutor” nem praticava esse negócio – se dizia faixa preta em karate, mas não sabia dizer o nome do estilo que aprendeu (existem mais de vinte). Estava com esse mestre há poucos meses. No entanto, isso tudo nós só viríamos a saber com o tempo, quando começaram a se avolumar os "causos" contraditórios do mestre – que afirmava já ter sido do exército, dos bombeiros, ter treinado com monges chineses e ninjas japoneses, e ser capaz de “deslocar a consciência” para visitar lugares distantes com a mente. Mesmo assim ainda fiquei três anos praticando, porque embora fosse completamente furada a história do negócio, o professor sabia lutar muito bem e eu estava aprendendo algumas coisas úteis. Isso quando ele aparecia para dar aula. Ou quando não trocava de academia/casa, já que cada vez que ele se separava de uma nova esposa, a ex-mulher levava metade das posses do camarada e perdíamos o nosso local de treino. De qualquer forma, meu colega treina com ele até hoje. Quando ele aparece para dar aula.

Depois disso fiquei mais ou menos um ano praticando Kung Fu (sim, aquela arte que eu achava complicada demais) tendo um dos alunos desse meu antigo mestre como professor. Ele já praticava há anos, e dava mais aulas que o próprio mestre. Fiz um acordo com ele para que me ensinasse apenas os movimentos mais “secos”, sem firulas que me confundissem a cabeça. Acabei aprendendo bastante coisa e me tornando um dos lutadores mais “temidos” do bairro (boa parte dessa fama veio de gente que nunca me viu lutando, mas enfim...), o que me valeu o apelido de “maldito samurai”. E o melhor, eu treinava de graça devido à minha amizade com o professor, que era meu parceiro em rodas-de-viola e partidas de sinuca.

Após este período fiquei algum tempo sem praticar nada. Em um dia qualquer de crise existencial decidi reiniciar minha jornada nas artes marciais e me matriculei em uma academia de Karate. Uma academia SÉRIA, registrada nos órgãos competentes, com professores federados, diplomas reconhecidos e tudo o mais.

Finalmente, o "causo"

E foi em uma dessas aulas que aconteceu o meu caso cômico, ao qual me referi no início do texto (se isso aqui fosse vestibular, eu estaria reprovado por fuga ao tema!). Estava lá, pronto para a aula, e eis que chega uma menina interessante que nunca havia visto antes. Loira, novinha (pensei que devia ter uns dezessete para dezoito anos), com cara e jeito de menina quieta (gosto disso). Como ainda estou nos meus vinte-e-poucos e não estava fazendo nada mesmo, pensei: "está na faixa".

Uma vez que ela chegou atrasada eu a ajudei a se alongar, bati um papo, comecei a puxar assunto... O “procedimento-padrão” que todo homem interessado em uma garota conhece. Então começou o treino.

Tudo transcorria normalmente, e toda vez em que eu tinha a chance (nas raras vezes em que o sensei – ou seja, o professor – me colocava para praticar com ela), começava a bater um papo com a garota. Ela era faixa branca, o “nível mais baixo” na “hierarquia” da arte – e era a única da turma neste dia.

Chegou a hora dos kata. Um “kata” é uma rotina de treino com movimentos pré-estabelecidos, como se fosse uma “luta” contra oponentes imaginários. Fizemos o mais básico deles e em seguida, de acordo com a hierarquia, o mestre pediu para que os faixas-brancas sentassem (só tinha ela mesmo) e prosseguiu com os demais alunos fazendo outros kata.

Chegou uma hora em que só haviam mais dois alunos e eu fazendo a rotina, e eu notei que ela ficava rindo. Acabamos, o professor nos pediu para ficarmos sentados enquanto fazia outro treino com os alunos mais graduados que nós. Eu me sentei ao lado dela, e ela puxou assunto:

- "Você não se importa se eu ficar rindo enquanto vocês praticam não, né?"

- "Depende do motivo do riso"

- "É que eu acho engraçado vocês que são velhos fazendo esse tipo de coisa"

Apesar desse duro golpe, um bom guerreiro não desiste nunca! Decidi perguntar quantos anos de idade ela achava que eu tinha. Conversa vai, conversa vem, ela me pergunta outra coisa pra mudar de assunto, eu respondo que perguntei primeiro... Então ela fala: “uns trinta”.

Segundo soco no estômago. Era melhor parar. Eu fiquei com uma tremenda cara de "putz...”, mas ainda assim tentei sair dessa. Brinquei, falei que devia estar acabado por causa do treino exaustivo, dei mais uma enrolada... Então ela me disse que chutou esse número pelas coisas que eu havia dito (que já era formado, fazia outra graduação, e demais detalhes da minha vida que ela captou com a conversa, ou melhor, com a minha tentativa de me exibir).

Eu falei minha idade, ela não acreditou, fez um monte de outras perguntas... e o papo continuou a fluir. Pensei que tinha revertido a situação. Foi então que decidi perguntar a idade dela. Achava que tinha uns dezessete, no mínimo dezesseis.

Ela respondeu: “treze”.

- “COMO????”

- “Treze”.

Eu já estava rindo de mim mesmo a essa altura, mas a conversa continuava. E ela continuava fazendo perguntas sobre a minha vida. Quando ela terminou o interrogatório e já sabia um bocado a meu respeito, coroou a minha noite com a seguinte frase:

- "Você tem mais experiência de vida do que meu pai".

K.O. Nocaute.

Até hoje não descobri se a intenção era de que fosse um elogio ou se ela estava tirando uma com a minha cara.